segunda-feira, 5 de setembro de 2011

D. Sancho I

D. Sancho I


Segundo rei de Portugal, filho de D. Afonso I e de D. Mafalda.  Quarto filho do monarca Afonso Henriques, foi baptizado com o nome de Martinho, por haver nascido no dia do santo com o mesmo nome, e não estaria preparado para reinar; no entanto, a morte do seu irmão mais velho, D. Henrique, quando contava apenas três anos de idade, levou à alteração da sua onomástica para um nome mais hispânico, ficando desde então Sancho Afonso.
Em 1170, Sancho foi armado cavaleiro pelo seu pai logo após o acidente de D. Afonso Henriques em Badajoz e tornou-se seu braço direito, quer do ponto de vista militar, quer do ponto de vista administrativo. Foi iniciado na vida militar aos 12 anos, tendo chefiado uma expedição a Cidade Rodrigo contra Fernando II que se saldou por um fracasso. Participou desde então no exercício do poder político, talvez devido à incapacidade física do rei. O povoamento das terras abandonadas foi uma das suas principais preocupações. Para alcançar este objetivo desenvolveu as instituições municipais e concedeu diversos forais, principalmente na Beira e em Trás-os-Montes: Gouveia (1186), Covilhã (1186), Viseu (1187), Bragança (1187), etc. Entre os anos de 1192 e 1195 receberam também forais Penacova, Marmelar, Pontével, Povos e S. Vicente da Beira. Os concelhos fronteiriços receberam privilégios particulares, tais como isenção de trabalhar na construção de castelos e muros, isenção do pagamento dos impostos de portagem e de colheita. A criação dos concelhos, para além do contributo que deu para o melhoramento económico e social, trouxe também vantagens de ordem militar e financeira, pois promoveu o aumento do número de combatentes que não recebiam soldo. Fixaram-se também em Portugal neste período numerosos colonos estrangeiros. As ordens religiosas, nomeadamente as militares, receberam de D. Sancho inúmeras concessões de terras e castelos. Nestes primeiros tempos de Portugal enquanto país independente, muitos eram os inimigos da coroa, a começar pelo reino de Castela e Leão que havia controlado Portugal até então. Para além do mais, a Igreja Católica demorava em consagrar a independência de Portugal com a sua bênção. Para compensar estas falhas, Portugal procurou aliados dentro da Península Ibérica, em particular o reino de Aragão, um inimigo tradicional de Castela, que se tornou no primeiro país a reconhecer Portugal. O acordo foi firmado 1174 pelo casamento de Sancho, então príncipe herdeiro, com a infanta Dulce Berenguer, irmã mais nova do rei Afonso II de Aragão.No ano de 1178, D. Sancho faz uma importante expedição contra mouros, confrontando-os cerca de Sevilha e do rio Guadalquivir, e ganha-lhes a batalha. Com essa acção, expulsa assim a possibilidade deles entrarem em território português. Com a morte de Afonso Henriques em 1185, Sancho I torna-se no segundo rei de Portugal. Tendo sido coroado na Sé de Coimbra, manteve essa cidade como o centro do seu reino. D. Sancho deu por finda as guerras fronteiriças pela posse da Galiza e dedicou-se a guerrear os Mouros localizados a Sul. Aproveitou a passagem pelo porto de Lisboa dos cruzados da terceira cruzada, na primavera de 1189, para conquistar Silves, um importante centro administrativo e económico do Sul, com população estimada em 20.000 pessoas. Sancho ordenou a fortificação da cidade e construção do castelo que ainda hoje pode ser admirado. A posse de Silves foi efémera já que em 1190 Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur cercou a cidade de Silves com um exército e com outro atacou Torres Novas, que apenas conseguiu resistir durante dez dias, devido ao rei de Leão e Castela ameaçar de novo o Norte.



Conquista de Silves e Alvor (1189)

"(...) preparámo-nos para a conquista de Silves a convite de El-Rei de Portugal, o qual também se preparava com gente e provimentos. Entrámos no porto de Silves encontrando a terra (...) sem habitantes por terem fugido todos para a cidade. Começaram então os flamengos a cavar uma mina sob o muro da cidadela, que comunicava com uma das torres da Almedina a fim de lá chegarem através da mina.
Finalmente, os mouros começaram a gritar (...) pela gente de El-Rei para (...) entregar a cidade dizendo que estavam mortos de sede. Combinámos que os infiéis saíssem somente com o que tivessem vestido, ficando El-Rei com a cidade e nós com o despojo (...)"

Em 1191, Silves caiu novamente na posse dos muçulmanos. Estava vingada a tomada dessa cidade, pelos portugueses, em 1189; a vingança foi de tal modo violenta que chegou até às muralhas de Tomar... tendo Portugal recuado as suas fronteiras até aos antigos limites do Tejo.

Neste sentido, o monarca português enfraquecido militarmente e totalmente frustrado pelo auxilio dos Cruzados, que apenas tinham como objectivo o saque, passou a dedicar-se à povoação e administração dos seus territórios, numa importante obra de organização e consolidação nacional.




Ficha genealógica

D. Sancho I, nasceu em Coimbra, 1154, e morreu em Coimbra a 26 de Março de 1212. Casou em 1174 com D. Dulce, que  nasceu em 1152 e morreu em Coimbra a 1 de Setembro de 1198, filha do conde de Barcelona, Raimundo Berenguer IV, rei de Aragão, e de D. Petronilha. Tiveram os seguintes filhos:

1. D. Teresa, nasceu em Coimbra por volta de 1175; rainha de Leão, em 1191, pelo casamento com D. Afonso IX, de quem se separou em 1196; entrou em religião por volta de 1228; morreu em Lorvão, com o título de infanta-rainha, a 18 de Junho de 1250; beatificada pela bula Sollicitudo Pastoralis Offici de 13 de Dezembro de 1705);
2. D. Sancha, nasceu em ano incerto, anterior a 1182; morreu no Mosteiro de Celas, a 13 de Março de 1229, sendo o corpo levado para Lorvão. Foi beatificada em 1705;
3. D. Constança, nasceu ao redor 1182; faleceu solteira a 3 de Agosto de 1202;
4. D. Afonso II, que herdou a coroa;
5. D. Pedro, nasceu em Coimbra a 23 de Fevereiro de 1187; residiu em Leão; foi conde de Urgel e rei das Baleares, tendo morrido em 2 de Junho de 1258);
6. D. Fernando, nasceu em 24 de Março de 1188; foi conde de Flandres pelo seu casamento com D. Joana, filha do conde Balduíno; esteve na batalha de Bouvines; morreu em Noyen a 4 de Março de 1233;
7. D. Henrique, nasceu em 1189 e morreu a 8 de Dezembro de ano incerto, sendo ainda jovem;
8. D. Raimundo, nasceu em ano incerto, tendo falecido depois de 1189;
9. D. Mafalda, nasceu em ano incerto, por volta de 1190; foi rainha de Castela em 1214, sem consumar o matrimónio com D. Henrique, filho do rei D. Afonso VIII, que faleceu de acidente em 1217; freira em Arouca, morreu em Rio Tinto (Amarante) a 1 de Maio de 1256; beatificada por breve papal de 27 de Junho de 1793;
10. D. Branca, nasceu por volta de 1192, tendo morrido solteira em 17 de Novembro de 1240, estando sepultada em Santa Cruz de Coimbra;
11. D. Berengária, nasceu c. 1195; rainha da Dinamarca, em 1214, pelo seu casamento com Valdemar II (1202-1241), morreu em 1221.
O monarca teve os seguintes bastardos de D. Maria Aires, de Fornelos: 
12. D. Martim Sanches, nasceu em data incerta; passou a Leão; morreu em  1229;
13. D. Urraca Sanches, casou com D. Lourenço Soares, tenente de Viseu e Lamego, neto de Egas Moniz; morreu depois de 1256.
De D. Maria Pais Ribeira, a célebre Ribeirinha, filha de D. Paio Moniz, teve D. Sancho I os seguintes filhos:
14. D. Rodrigo Sanches, nasceu em data incerta, e morreu em 1245, no combate de Gaia; sepultado no Mosteiro de Grijó;
15. D. Gil Sanches, nasceu em data incerta; faleceu em 14 de Setembro de 1236;
16. D. Nuno Sanches, que morreu de tenra idade;
17. D. Maior Sanches, que morreu de tenra idade;
18. D. Constança Sanches, nasceu em Coimbra no ano de 1204; professou no Convento das Donas; morreu em 8 de Agosto de 1129, estando sepultada em Santa Cruz;
19. D. Teresa Sanches, nasceu em data incerta; segunda mulher de D. Afonso Telo de Meneses, senhor de Albuquerque; morreu em 1230.

D. Afonso Henriques


D. Afonso Henriques


D. Afonso I de Portugal, mais conhecido por Dom Afonso Henriques , nasceu em Guimarães ou Viseu em 1109, foi o fundador do Reino de Portugal e primeiro Rei dos Portugueses, cognominado “O Conquistador”, “ O Fundador”  ou “O Grande”  pela fundação do reino e pelas muitas conquistas. Era filho de D. Henrique de Borgonha , conde de Portucale, e de D. Teresa, infanta do reino de Leão e condessa de Portucale, um condado dependente do reino de Leão. Após a morte de seu pai, Afonso tomou uma posição política oposta à da mãe, que se aliara ao nobre galego Fernão Peres de Trava. Tomou, em 1120, uma posição política oposta à de D. Teresa (que apoiava o partido dos Travas), sob a direcção do arcebispo de Braga. Este forçado a emigrar leva consigo o infante que em 1122 se arma cavaleiro. Restabelecida a paz, voltam ao condado. Entretanto novos incidentes provocam a invasão do condado portucalense por D. Afonso VII, que, em 1127, cerca Guimarães onde se encontrava D. Afonso Henriques. Sendo-lhe prometida a lealdade deste, D. Afonso VII desiste de conquistar a cidade. Mas alguns meses depois, em 1128, as tropas de D. Teresa defrontam-se com as de D. Afonso Henriques tendo estas saído vitoriosas, na conhecida batalha de São Mamede ,o que consagrou a autoridade de D. Afonso Henriques no território portucalense, levando-o a assumir o governo do condado. Concentrou então os esforços em obter o reconhecimento como reino. No dia 6 de abril de 1129 D. Afonso Henriques dita uma carta em que se proclama soberano das cidades portuguesas. Em 1135, Afonso VII, filho de D. Urraca, é coroado "imperador de toda a Espanha" na catedral de Leão, mas D. Afonso Henriques recusa-se a reconhecer o primo como Rei. Em 1139, depois da vitória na batalha de Ourique contra um contingente mouro, D. Afonso Henriques proclamou-se rei de Portugal com o apoio das suas tropas. Segundo a tradição, a independência foi confirmada mais tarde, nas míticas cortes de Lamego, quando recebeu a coroa de Portugal do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, se bem que estudos recentes questionem a reunião destas cortes. Em 1140 Afonso assina pela primeira vez "Ego Alfonsus portugalensium Rex".  A independência portuguesa foi reconhecida em 1143 pelo tratado de Zamora e deve-se ao desejo de Afonso VII de Leão e Castela em tomar o título de imperador de toda a Hispânia e, como tal, necessitar de reis como vassalos. Desde então, Afonso I procurou consolidar a independência por si declarada. Fez importantes doações à Igreja e fundou diversos conventos. Com a pacificação interna, prosseguiu as conquistas aos mouros, empurrando as fronteiras para sul, desde Leiria ao Alentejo, mais que duplicando o território que herdara. Os muçulmanos, em sinal de respeito, chamaram-lhe Ibn-Arrik, «filho de Henrique», tradução literal do patronímico Henriques ou El-Bortukali «o Português». Em 1147 é Santarém tomada por surpresa; durante 22 anos de 1147 a 1163, houve continuas invasões na província de Alcácer do Sal; a cidade é que sempre resistia, caindo afinal nas mãos dos portugueses em 1158. Desde essa data até 1169, a vida de D. Afonso Henriques foi uma série de combates em que sempre saia vencedor; à conquista de Lisboa, seguira-se a de Santarém; as vilas de Palmela, Almada e Sintra, caíram em poder do novo rei, que em breve se tornou também senhor de todas as terras entre o Mondego e o Tejo; Beja foi tomada em 1162, Évora, Moura, Serpa e Sesimbra, em 1166; continuou sempre combatendo, apesar de já muito adiantado em anos, tendo por companheiros esforçados homens destemidos como Martim Moniz, Geraldo sem pavor, Gonçalo Mendes da Maia, Fernando Gonçalves, etc. O período das gloriosas façanhas militares do fundador da monarquia encerra-se epicamente com a heróica resistência de Santarém e Lisboa. Em 1184, contra a invasão do emir Iussuf Abu Jacub, morto com uma lançada, quando atravessava o Tejo, por D. Sancho, filho de D. Afonso Henriques.  




A Batalha de Ourique (1139)


A Batalha de Ourique ocorreu a 25 de Julho de 1139, num local que as fontes denominam de Ourique (Aulic, Oric, Ouric), que na altura estaria no território controlado pelos muçulmanos (tunc cor terrae sarracenorum). No terreno defrontaram-se as forças “portuguesas” lideradas por D. Afonso Henriques, que havia partido de Coimbra, contra cinco “reis” mouros: Sevilha, Badajoz, Évora, Beja e um quinto de nome Ismar, que alguns autores pensam ser o alcaide de Santarém e outros de Elvas, sendo apenas esta uma das muitas dúvidas que envolvem esta importante batalha. Foi travada numa das incursões que os cristãos faziam em terra de mouros para apreenderem gado, escravos e outros despojos. Nela se defrontaram as tropas cristãs, comandadas por D. Afonso Henriques, e as muçulmanas, em número bastante maior. Inesperadamente, um exército mouro saiu-lhes ao encontro e, apesar da inferioridade numérica, os cristãos venceram. Foram as vitórias militares que asseguraram a D. Afonso Henriques, um território suficientemente vasto para se afirmar como um Reino, e foram estas também que permitiram que o Reino de Portugal fosse reconhecido internacionalmente como tal. Destas vitórias, Ourique é sem dúvida a mais importante, pois foi a partir desta que Afonso Henriques passou a utilizar o título de Rei. Com a enorme vitória em Ourique, D. Afonso Henriques passa a ser considerado um importante líder militar internacionalmente, facto que este aproveita para se intitular de Rei. Esta vitória apenas confirmava o que há muito se vinha verificando, Afonso Henriques sempre tinha procedido como um príncipe independente, apesar da sua condição de vassalo.
A ideia de milagre ligado a esta batalha surge pela primeira vez no século XIV, muito depois da batalha. Ourique serve, a partir daí, de argumento político para justificar a independência do Reino de Portugal: a intervenção pessoal de Deus era a prova da existência de um Portugal independente por vontade divina e, portanto, eterna. A lenda narra que, naquele dia, consagrado a Santiago, o soberano português teve uma visão de Jesus Cristo e dos anjos, garantindo-lhe a vitória em combate. Contudo, esse pormenor foi interposto mais tarde na narrativa, sendo praticamente decalcado da narrativa da Batalha da Ponte Mílvio, opondo Maxêncio a Constantino o Grande, segundo a qual Deus teria aparecido a este último dizendo IN HOC SIGNO VINCES (latim, «Com este sinal vencerás!»). Este evento histórico marcou de tal forma o imaginário português, que se encontra retratado no brasão de armas da nação: cinco escudetes (cada qual com cinco besantes), representando os cinco reis mouros vencidos na batalha.
 
Assim descreve Camões o milagre de Ourique (canto III, estância 45):
A matutina luz serena e fria
As estrelas do pólo já apartava,
Quando na cruz o Filho de Maria
Amostrando-Se a Afonso o animava.
Ele, adorando Quem lhe aparecia,
Na fé todo inflamado assim gritava:
— Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
E não a mim, que creio o que podeis!

 

 

 

Tratado de Zamora (1143)

 



Há quem indique o dia 5 de Outubro de 1143 como a data da formação do reino de Portugal independente, mas tal não é correcto. É verdade que, no Tratado de Zamora, o imperador de toda a Hispânia, D. Afonso VII, reconheceu o título real a seu primo, fazendo de Portugal um reino. Porém, à semelhança do que acontecera em Tui, Afonso Henriques declarou-se, mais uma vez, vassalo do imperador! O que quer dizer que o Tratado de Zamora, no fundo, mais não foi do que a confirmação do Tratado de Tui, que Afonso Henriques desrespeitara, ao invadir, mais uma vez, a Galiza. Com isso, forçou D. Afonso VII a reconhecer-lhe o título real, mas não conseguiu a tão almejada independência. Aliás, o imperador seu primo nunca lha reconheceu oficialmente.

Vitorioso na batalha de Ourique, em 1139, D. Afonso Henriques beneficiou da acção desenvolvida, em favor da constituição do novo reino de Portugal, pelo arcebispo de Braga, Dom João Peculiar. Este procurara conciliar os dois primeiros e fez com que eles se encontrassem em Zamora nos dias 4 e 5 de Outubro de 1143 na presença do cardeal Guido de Vico. Pelos termos do tratado, Afonso VII concordou em que o Condado Portucalense passasse a ser Reino, tendo D. Afonso Henriques como seu "rex" (rei). Embora reconhecesse a independência, D. Afonso Henriques continuava a ser vassalo, pois D. Afonso VII para além de ser rei de Leão e Castela era Imperador de toda a Hispânia. A soberania portuguesa, reconhecida por Afonso VII em Zamora, só veio a ser confirmada pelo Papa Alexandre III em 1179, mas o título de "rex", que D. Afonso Henriques usava desde 1140, foi confirmado em Zamora, comprometendo-se então o monarca português, ante o cardeal, a considerar-se vassalo da Santa Sé, obrigando-se, por si e pelos seus descendentes, ao pagamento de um censo anual. A partir de 1143 D. Afonso Henriques vai enviar ao Papa remissórias declarando-se seu vassalo lígio e comprometendo-se a enviar anualmente uma determinada quantia de ouro. As negociações vão durar vários anos, de 1143 a 1179. Em 1179 o Papa Alexandre III envia a D. Afonso Henriques a "Bula Manifestis probatum"; neste documento o Papa aceita que D. Afonso Henriques lhe preste vassalagem directa, reconhece-se definitivamente a independência do Reino de Portugal sem vassalagem em relação a D. Afonso VII de Leão e Castela (pois nenhum vassalo podia ter dois senhores directos) e D. Afonso Henriques como primeiro rei de Portugal, ou seja, Afonso I de Portugal.

 

 

Batalha de Sacavém (1147)


Após a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques preparou-se para tomar Lisboa e assim consolidar definitivamente não só a linha do Tejo como a própria independência de Portugal – o domínio do seu fértil vale garantia-lhe a plena auto-suficiência e malograva os planos leoneses de re-anexar Portugal. Entretanto, espalhava-se pela Estremadura a notícia de que os cristãoscercavam Lisboa, tornando-se imperativo ajudar à defender a todo o custo o derradeiro reduto muçulmano a Norte do Tejo. Assim sendo, ter-se-iam reunido nas proximidades de Sacavém, a norte do seu rio, prontos a dar luta e a desbaratar as forças de Afonso Henriques, cerca de cinco mil muçulmanos oriundos não só da Estremadura (Alenquer, Lisboa e Sacavém), como até do Oeste (Óbidos e Torres Vedras) e do Ribatejo (Tomar e Torres Novas), sob o comando do wali (alcaide muçulmano) de Sacavém, Bezai Zaide.
D. Afonso Henriques dispunha apenas de uma força de mil e quinhentos guerreiros, e foi nessas condições que se iniciou a batalha, tendo como palco Sacavém de Baixo, na margem do rio de Sacavém, entre os actuais montes de Sintra e do Convento, junto à velha ponte romana, fortemente defendida pelos mouros, os quais haviam já iniciado a sua travessia, dispostos a desbaratar os portugueses. Não obstante a significativa diferença numérica entre ambos os contendores, acabaram por vencer os cristãos; muito embora a maior parte destes últimos tenha perecido, conseguiram ainda assim matar três mil muçulmanos a fio de espada, tendo os restantes mouros afogado-se no rio ou sido feito prisioneiros. Esta miraculosa vitória foi atribuída à divina intervenção da Virgem Maria, que teria feito aparecer durante o combate «muitos homens estranhos que pelejavam com os cristãos». Como Afonso Henriques contou com o apoio de Cruzados para tomar a capital, podemos partir do princípio, mais ou menos seguro, de que os homens estranhos (id est, «estrangeiros») a que a fonte se reporta seriam esses cristãos oriundos da Europa do Norte. Conta-se aliás que Bezai Zaide, perante o sucedido, ter-se-ia convertido à fé cristã e sido inclusive o primeiro sacristão da ermida dedicada a Nossa Senhora dos Mártires (assim chamada em honra dos cristãos que caíram na batalha), que D. Afonso Henriques ali mandou erguer passados poucos dias do recontro. Ao mesmo tempo, o rei teria também mandado reconstruir a velha Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres (que se quedara em ruína sob a ocupação muçulmana, apesar de estes terem aparentemente permitido a manutenção do culto cristão, mediante o pagamento de um dado tributo - a jizya - às autoridades islâmicas), tendo feito dela sede paroquial de Sacavém e alterado a sua invocação, dedicando-a ora a Nossa Senhora da Vitória (em homenagem à sua estrondosa vitória sobre os mouros, devido à intercessão da Virgem).
A lenda
O primeiro a aludir a esta tradição foi o monge cisterciense de Alcobaça, Frei António Brandão, na sua Monarquia Lusitana (fóls. 170, 170 v. e 171) – afirmando basear-se numa tradição, já velha, recolhida entre as gentes de Sacavém; também Miguel de Moura, nas suas inéditas Memórias da Fundação do Mosteiro de Sacavém, alude a essa lenda existente entre os sacavenenses, que mandou averiguar quando desejou erigir o Convento de Nossa Senhora dos Mártires e da Conceição de Sacavém, no lugar da antiga ermida da Senhora dos Mártires, em 1577. Contudo, não há quaisquer provas históricas que corroborem a existência de facto deste combate; as fontes coevas da conquista (como a conhecida Carta do cruzado inglês Randulfo ao clérigo Osberto de Baldreseia – a moderna Bawdsey, no Suffolk –, a qual relata em pormenor a expugnação da cidade), não fazem qualquer alusão a este embate às margens do rio de Sacavém. No século XIX, o grande historiador e político Alexandre Herculano foi o primeiro a picamente lendária, pelo menos com os contornos com que foi descrita...





Cerco de Lisboa (1147)

O Cerco de Lisboa, com início a 1 de Julho de 1147 e que durou até 25 de Outubro, e foi um episódio integrante do processo de Reconquista cristã da península Ibérica, culminando na conquista desta cidade aos mouros pelas forças de D. Afonso Henriques com o auxílio dos Cruzados em trânsito para o Médio Oriente. Efetivamente, este episódio constituiu o único sucesso da Segunda Cruzada. Após a queda de Edessa, em 1144, o Papa Eugénio III convocou uma nova cruzada para 1145 e 1146. O Papa ainda autorizou uma cruzada para a Península Ibérica, embora esta fosse uma guerra desgastante de já vários séculos, desde a derrota dos Mouros em Covadonga, em 718. Nos primeiros meses da Primeira Cruzada em 1095, já o Papa Urbano II teria pedido aos Cruzados ibéricos (futuros Portugueses, Castelhanos, Leoneses, Aragoneses, etc.) que permanecessem na sua terra, já que a sua própria guerra era considerada tão valente como a dos Cruzados em direcção a Jerusalém. Eugénio reiterou a decisão, autorizando Marselha, Pisa, Génova e outras grandes cidades mediterrânicas a participar na guerra da Reconquista. A 19 de Maio zarparam os primeiros contingentes de Cruzados de Dartmouth, Inglaterra, constituídos por Flamengos, Normandos, Ingleses, Escoceses e alguns cruzados Germanos. Segundo Odo de Deuil, perfaziam no total 164 navios — valor este provavelmente aumentado progressivamente até à chegada a Portugal. Durante esta parte da Cruzada, não foram comandados por nenhum príncipe ou rei; a Inglaterra estava em pleno período d'A Anarquia. A armada chegou à cidade do Porto a 16 de Junho, sendo convencidos pelo bispo do Porto, Pedro II Pitões, a tomarem parte nessa operação militar. Após a conquista de Santarém (1147), sabendo da disponibilidade dos Cruzados em ajudar, as forças de D. Afonso Henriques prosseguiram para o Sul, sobre Lisboa. As forças portuguesas avançaram por terra, as dos Cruzados por mar, penetrando na foz do rio Tejo; em Junho desse mesmo ano, ambas as forças estavam reunidas, ferindo-se as primeiras escaramuças nos arrabaldes a Oeste da colina sobre a qual se erguia a cidade de então, hoje a chamada Baixa. Após violentos combates, tanto esse arrabalde, como o a Leste, foram dominados pelos cristãos, impondo-se dessa forma o cerco à opulenta cidade mercantil. Bem defendidos, os muros da cidade mostraram-se inexpugnáveis. As semanas se passavam em surtidas dos sitiados, enquanto as máquinas de guerra dos sitiantes lançavam toda a sorte de projéteis sobre os defensores, o número de mortos e feridos aumentando de parte a parte. No início de Outubro, os trabalhos de sapa sob o alicerce da muralha tiveram sucesso em fazer cair um troço dela, abrindo uma brecha por onde os sitiantes se lançaram, denodadamente defendida pelos defensores. Por essa altura, uma torre de madeira construída pelos sitiantes foi aproximada da muralha, permitindo o acesso ao adarve. Diante dessa situação, na iminência de um assalto cristão em duas frentes, os muçulmanos, enfraquecidos pelas escaramuças, pela fome e pelas doenças, capitularam a 24 de Outubro. Entretanto, somente no dia seguinte, o soberano e suas forças entrariam na cidade, nesse meio tempo violentamente saqueada pelos Cruzados. Decorrente deste cerco surgem os episódios lendários de Martim Moniz, que teria perecido pela vitória dos cristãos, e da ainda mais lendária batalha de Sacavém. Alguns dos Cruzados estabeleceram-se na cidade, de entre os quais se destaca Gilbert de Hastings, eleito bispo de Lisboa. Após a rendição uma epidemia de peste assolou a região fazendo milhares de vitimas entre a população.
Lisboa tornou-se, entretanto, capital de Portugal a 1255.

 

 

Cerco de Badajoz (1169)


De 1166 a 1168, D. Afonso Henriques apoderara-se de várias praças pertencentes à coroa leonesa. Fernando II de Leão estava a repovoar Ciudad Rodrigo e o português, suspeitando que o seu genro estava a fortificar a cidade para o atacar, enviou um exército comandado pelo seu filho, o infante D. Sancho, contra aquela praça. O rei leonês foi em auxílio da cidade ameaçada e derrotou as tropas portuguesas, fazendo um grande número de prisioneiros. Em resposta, D. Afonso Henriques entrou pela Galiza, tomou Tui e vários outros castelos, e em 1169 atacou primeiro Cáceres. Depois voltou-se contra Badajoz na posse dos sarracenos, mas que pertenceria a Leão, conforme o acordado no tratado de Sahagún assinado entre aquele reino e Castela.Não obstante, sem respeitar estas convenções nem os laços de parentesco que o uniam a Fernando o rei português cercou Badajoz para a conquistar para Portugal.D.Afonso Henriques foi socorrer o salteador Geraldo Geraldes «o sem pavor», que cercava Badajoz, Geraldo já tinha conseguido ultrapassar a muralha exterior mas os mouros resistiam fechados na alcáçova, no entanto foram os portugueses surpreendidos pela chegada de reforços leoneses. Fernando de Leão apresentou-se com as suas hostes e atacou D. Afonso nas ruas da cidade. Percebendo a impossibilidade de manter a luta, terá tentado fugir a cavalo. Na fuga, porém, D. Afonso Henriques sofreu um acidente: caiu do cavalo e bateu de encontro a uma das portas da muralha, partiu uma perna e foi feito prisioneiro pelos cavaleiros leoneses que o levaram a presença do rei D. Fernando II de Leão, que o tratou com respeito que lhe merecia como pessoa e como sogro, pois tinha casado com D.Urraca filha do rei português. A libertação do rei foi conseguida em troca de um resgate em dinheiro e da entrega de das praças de Trujillo, Cáceres e Montánchez. Esta campanha teve como resultado um tratado de paz entre ambos os reinos, assinado em Pontevedra, em virtude do qual Afonso foi libertado, com a única condição de devolver a Fernando cidades estremenhas (da Estremadura espanhola) tais como Cáceres, Badajoz, Trujillo, Santa Cruz , Monfragüe e Montánchez, que havia conquistado a Leão. Estabeleciam-se assim as fronteiras de Portugal com Leão e a Galiza. E mais tarde, quando os muçulmanos sitiaram Santarém, o leonês auxiliou imediatamente o rei português.

Este incidente pôs fim à carreira militar do 1º rei de Portugal, visto que naquele tempo era impossível recuperar de uma fractura profunda e nunca mais pode montar a cavalo, passando a deslocar-se numa carreta de madeira.





Ultimo Acto (1179)


O último acto do processo é o reconhecimento formal, por parte da Igreja de Roma, da realeza de D. Afonso Henriques. Isso só veio a acontecer muito mais tarde, em 1179, perto do fim do reinado; até então, os diplomatas de Roma evitaram habilmente chamar-lhe rei. A concessão foi arrancada por um presente de mil moedas de ouro, mas na verdade não parece que tenha tido muita influência na consolidação de uma independência que era já então facto consumado. Em Espanha já não havia «imperador». A força que momentaneamente parecera impelir para uma unidade peninsular não evitara a fragmentação, de acordo com as ideias feudais. Afonso Henriques era um dos vários reis existentes na Península e em 1179 já tinha comprovado, com um longo e sábio reinado, que era um grande monarca.”
“O que existe é uma carta enviada em Dezembro desse mesmo ano por D. Afonso Henriques ao papa, na qual afirma que se constituía a ele e a todos os seus sucessores, «censual» da Igreja de Roma e se declarava a si próprio «homem e cavaleiro do papa e de S. Pedro, sob a condição de a Santa Sé o defender de quaisquer outros poderes eclesiásticos ou civis».


Morte e legado

 

Após o incidente de Badajoz, a carreira militar de D. Afonso Henriques praticamente terminou. A partir daí, dedicou-se à administração dos territórios com a co-regência do seu filho D. Sancho. Procurou fixar a população, promoveu o municipalismo e concedeu forais. Contou com a ajuda da ordem religiosa dos cistercienses para o desenvolvimento da economia, predominantemente agrária. Além de guerreiro consumado, foi “político enérgico e tenaz, que bem conhecia os meios de se afirmar e vencer”, como escreve um historiador.
O reinado de Afonso Henriques ficou marcado pela tolerância para com os judeus. Estes estavam organizados num sistema próprio, representados politicamente pelo grão-rabino nomeado pelo rei. O grão-rabino Yahia Ben Yahia foi mesmo escolhido para ministro das Finanças de Afonso Henriques, responsável pela coleta de impostos no reino. Com esta escolha teve início uma tradição de escolher judeus para a área financeira e de manter um bom entendimento com as comunidades judaicas, que foi seguida por seus sucessores.



Ficha genealógica:

D. Afonso Henriques, nasceu possivelmente em Coimbra, em 1109, e faleceu em Coimbra em 8 de Dezembro de 1185. Casou em 1145/1146 com D. Mafalda, que nasceu em data incerta, e morreu em Coimbra a 4 de Novembro de 1157, ficando sepultada no Convento de Santa Cruz; filha de Amadeu II, conde de Sabóia e Pie monte, e da condessa Mafalda de Albon. Tiveram os seguintes filhos:

1. D. Henrique, nasceu a 5 de Março de 1147 e morreu jovem;
2. D. Sancho, que herdou a coroa;
3. D. João, nasceu e morreu em data incerta;
4. D. Urraca, nasceu em Coimbra, por volta de 1150, e casou com D. Fernando II, rei de Leão, por 1165; sendo repudiada em 1179; faleceu em ano incerto;
5. D. Mafalda, nasceu em Coimbra, em ano incerto; noiva do conde D. Raimundo de Berenguer, filho do conde de Barcelona, em 1160; faleceu pouco depois;
6. D. Teresa, nasceu em ano incerto; casou com Filipe de Alsácia, conde de Flandres, por volta de 1177; faleceu depois de 1211, em Furnes);
7. D. Sancha, nasceu e faleceu em data incerta.
O monarca teve os seguintes filhos bastardos:
8. D. Fernando Afonso, referido em documentos de 1166 a 1172;
9. D. Pedro Afonso (na e F. em data incerta), por muitos considerados também irmão do monarca, pois tomou parte na conquista de Santarém e esteve em Claraval antes de 1153.
10. D. Afonso, nasceu em ano incerto; mestre da Ordem de S. João de Rodes, de 1203 a 1206; faleceu em 1 de Março de 1207;
11. D. Urraca, que nasceu e faleceu em data incerta.